Doze Horas em Bogotá: Café sem Açúcar e o Aroma da Reflexão
Uma escala inesperada, um café sem açúcar e as cores de La Candelaria. Acompanhe esta crônica sobre doze horas em Bogotá, Colômbia, onde a memória e o acaso se encontram em cada esquina.
VIAGENS
Thalia Nuritza
2/8/20261 min read


O coração taquicardíaco, por certo, não era tão amigo do acaso. Relutava em cerrar os cintos da confiança quando a moça obstinada choramingava ao agente de bordo mais um concerto perdido – desta vez Air Supply. Se um avião surpreendente surgisse a cada justificativa, não haveria controladores o bastante.
“O que você perdeu?”, questionaram-me. Uma represa de interrogações calava a voz derramada no papel, em alguma mesa de aeroporto. Ela só me permitia, àquela altura, confessar que talvez a reserva do carro tivesse sido perdida.
A verdade repousava no nada... no dissílabo: “nada”.
No caminho, táxis amarelos e vislumbres nas janelas vítreas emolduradas em aço num fim de ano gélido; não em Nova Iorque, mas em Bogotá. O relógio surreal condenaria, em doze horas, o trecho ao instante da memória.
Plaza Bolívar, Capitolio Nacional e Catedral Primada. Chichas e perros calientes por toda parte, em todas as cores do coração de La Candelaria. O frescor da chuva misturava-se ao aroma de cafés em ruas estreitas e arcaicas, repletas da neblina condensada pelo tempo e pela juventude.
A xícara aos lábios era o abrigo ornado em rumba, iluminado pela salsa cubana melodramática.
– Prove-o sem açúcar. Um bom café colombiano não necessita adoçar – disse o senhorzinho cujos olhos sublimes abarcavam uma tristeza estranha ao discurso.
Revisei alguns escritos adormecidos, sussurros da brisa tímida matinal. Encontrei sua lembrança, mas não seu nome. Se pensei ou sonhei, já não sei. Esquina profunda aquela, dissolvida na nuvem de minhas sensações. Chamou-me do outro lado em suave e solitário canto. Admirava, por fim – e com tamanha ternura – minha própria admiração.